Vocês leram a notícia sobre uma atleta russa surda que morreu atropelada no Rio de Janeiro? Pois a tal notícia me deixou de cabelos em pé, além de me colocar para pensar. Pensar a respeito dos perigos que a surdez traz para a nossa vida diária. E se você é do tipo que considera a surdez uma grande dádiva, uma coisa maravilhosa, linda e diferente,melhor não ler este post.

A audição é um sentido importantíssimo para a segurança e a auto-preservação do ser humano. Ela serve para nos alertar e permite que possamos nos defender e zelar por nossa própria integridade sem depender de ninguém para isso. Até 2013 quem me alertava eram as outras pessoas, não os meus ouvidos. Não ouvia as campainhas tocando, os carros passando, buzinas, alguém quebrando minha porta, alguém gritando por mim, ambulâncias, enfim, meu corpo não era capaz de me deixar a par dos perigos que aconteciam ao meu redor. A gente dá um jeito de se defender. Procurava me cercar de amigos zelosos e sabia que minha família me protegeria de tudo o que fosse possível mas…e quando eu estivesse sozinha?

A pessoa que não ouve fica totalmente à mercê de assaltos na sua residência, incêndios e infinitos tipos de acidentes domésticos. Já vivi isso na pele! E sempre digo que é uma péssima ideia sair por aí anunciando que você não escuta, pois na nossa inocência podemos acabar sendo vítimas de pessoas mal intencionadas. Especialmente os surdos que moram sozinhos. Aliás, imagine uma pessoa que não escuta e mora sozinha e, de repente, passa muito mal e sente que está enfartando. Como vai chamar o socorro?

Em termos de acidentes domésticos, já vivi uma situação horrível. Surda profunda, recém implantada e ainda não ativada, estava dividindo um quarto de hotel com a minha mãe após a cirurgia. Ela caiu no banheiro enquanto tomava banho, se arrebentou toda e eu….nem tchuns!! Imaginem se ela tivesse batido a cabeça? Teria sido fatal, ainda mais porque, sem falar ao telefone, como eu iria pedir socorro? É trágico não ser capaz de ouvir o pedido de socorro de alguém que amamos.

Já me aconteceu de colocar coisas no fogo e esquecer – aí como a gente não ouve a chaleira apitando ou a água fervendo, já viu. Uma vez quase incendiei a minha casa assim.

Também quase já fui atropelada (relato no segundo livro a pior situação que vivi nesse sentido) e sim, isso se deu pelo fato de não ouvir os barulhos do trânsito. Não é preciso ser muito esperto para entender que até mesmo quem ouve tem grande chance de ser vítima desse tipo de acidente. Só que, para aqueles que não ouvem, a probabilidade de ser atropelado se multiplica ad infinitum.

Assaltos na rua? Já soube de surdos que foram assassinados porque não ouviram ou não entenderam as ordens de assaltantes. Já li notícias internacionais sobre crianças surdas sendo molestadas por gente que percebeu como a surdez fazia delas presas muito fáceis. Nos EUA, mais de 200 meninos surdos foram molestados sexualmente por um padre.

Vocês viram a notícia da senhorinha surda que salvou marinheiros que gritavam por socorro? Por coincidência, naquele dia ela estava testando aparelhos auditivos. Acho que não preciso nem comentar sobre a importância de usarmos a tecnologia para voltar ao mundo dos sons quando temos chance, certo?

Foi com a situação de emergência de levar minha mãe para o hospital de ambulância que minha ficha a respeito deste assunto caiu de vez. Foi uma situação tão rápida, tão estressante e me demandou tanto em termos de audição e atenção que meu único pensamento era: “Graças a Deus que passei por isso OUVINDO!” Não sei como teria sido se eu tivesse precisado bater na porta do vizinho, explicar o que estava acontecendo, pedir que ele chamasse a ambulância, depois pedir que ele conversasse com os paramédicos, depois convencê-lo a ir junto no hospital e cuidar de toda a burocracia. Melhor nem pensar nisso. Mas são situações reais que não só podem como também acontecem com pessoas que não ouvem.

Não ouvir só é ‘seguro’ dentro de um ambiente MUITO, mas MUITO protegido. Acontece que no mundo real um ambiente desses não existe. Os sons e barulhos servem para alertar o ser humano dos perigos que ele corre e das situações nas quais se encontra. Portanto, não venham me dizer que a surdez é apenas uma diferença linda, não venham me falar em cultura e que ‘Deus quis assim, assim deve ser‘. Não ouvir é perigoso de incontáveis maneiras, e tenho certeza absoluta de que todo surdo já passou por alguma situação na qual sentiu muita vontade de chorar pelo risco que correu em função da surdez. Alguns dirão que ouvintes correm os mesmos riscos e estão sujeitos às mesmas fatalidades, o que não deixa de ser verdade. Outros dirão que bastam recursos de acessibilidade para resolver essas coisas, o que não deixa de ser uma ilusão. A surdez infelizmente nos deixa desprotegidos e contra este fato não há argumentos. Contornamos como podemos, e só nos resta rezar para que o pior nunca aconteça. E, claro, dar uma forcinha pro anjo da guarda usando nossos aparelhos auditivos e implantes cocleares quando podemos usar um.

Fonte: Site Crônicas da Surdez. 

 

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